Gabarito comentado 2ª fase XXV Exame de Ordem – Direito Penal

Gabarito comentado 2ª fase XXV Exame de Ordem – Direito Penal

2018-06-11T19:41:05+00:00 Por |Exame de Ordem 2ª Fase|0 Comentários

ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL XXV EXAME DE ORDEM UNIFICADO
PROVA PRÁTICO-PROFISSIONAL Aplicada em 10/06/2018    ÁREA: DIREITO PENAL

Enunciado

Patrick, nascido em 04/06/1960, tio de Natália, jovem de 18 anos, estava na varanda de sua casa em Araruama, em
05/03/2017, no interior do Estado do Rio de Janeiro, quando vê o namorado de sua sobrinha, Lauro, agredindo-a de
maneira violenta, em razão de ciúmes.
Verificando o risco que sua sobrinha corria com a agressão, Patrick gritou com Lauro, que não parou de agredi-la.
Patrick não tinha outra forma de intervir, porque estava com uma perna enfaixada devido a um acidente de trânsito.
Ao ver que as agressões não cessavam, foi até o interior de sua residência e pegou uma arma de fogo, de uso
permitido, que mantinha no imóvel, devidamente registrada, tendo ele autorização para tanto. Com intenção de
causar lesão corporal que garantisse a debilidade permanente de membro de Lauro, apertou o gatilho para efetuar
disparo na direção de sua perna. Por circunstâncias alheias à vontade de Patrick, a arma não funcionou, mas o
barulho da arma de fogo causou temor em Lauro, que empreendeu fuga e compareceu à Delegacia para narrar a
conduta de Patrick.
Após meses de investigações, com oitiva dos envolvidos e das testemunhas presenciais do fato, quais sejam, Natália,
Maria e José, estes dois últimos sendo vizinhos que conversavam no portão da residência, o inquérito foi concluído,
e o Ministério Público ofereceu denúncia, perante o juízo competente, em face de Patrick como incurso nas sanções
penais do Art. 129, § 1º, inciso III, c/c. o Art. 14, inciso II, ambos do Código Penal. Juntamente com a denúncia,
vieram as principais peças que constavam do inquérito, inclusive a Folha de Antecedentes Criminais, na qual
constava outra anotação por ação penal em curso pela suposta prática do crime do Art. 168 do Código Penal, bem
como o laudo de exame pericial na arma de Patrick apreendida, o qual concluiu pela total incapacidade de efetuar
disparos.
Em busca do cumprimento do mandado de citação, o oficial de justiça comparece à residência de Patrick e verifica
que o imóvel se encontrava trancado. Apenas em razão desse único comparecimento no dia 26/02/2018, certifica
que o réu estava se ocultando para não ser citado e realiza, no dia seguinte, citação por hora certa, juntando o
resultado do mandado de citação e intimação para defesa aos autos no mesmo dia. Maria, vizinha que presenciou a
conduta do oficial de justiça, se assusta e liga para o advogado de Patrick, informando o ocorrido e esclarecendo que
ele se encontra trabalhando e ficará embarcado por 15 dias. O advogado entra em contato com Patrick por e-mail e
este apenas consegue encaminhar uma procuração para adoção das medidas cabíveis, fazendo uma pequena síntese
do ocorrido por escrito.
Considerando a situação narrada, apresente, na qualidade do advogado de Patrick, a peça jurídica cabível, diferente
do habeas corpus, apresentando todas as teses jurídicas de direito material e processual pertinentes. A peça deverá
ser datada do último dia do prazo. (Valor: 5,00)
Obs.: a peça deve abranger todos os fundamentos de Direito que possam ser utilizados para dar respaldo à
pretensão. A simples menção ou transcrição do dispositivo legal não confere pontuação.

Gabarito Comentado 2ª Fase – Direito Penal

Gabarito Comentado

Considerando a situação narrada, o examinando deveria apresentar Resposta à Acusação, com fundamento no
Art. 396-A do Código de Processo Penal, em busca de evitar o prosseguimento do processo em desfavor de
Patrick. A peça deveria ser encaminhada para a Vara Criminal da Comarca de Araruama, Rio de Janeiro, local onde
o delito imputado teria sido praticado.
Já de início, preliminarmente, deveria o advogado requerer o reconhecimento da nulidade do ato de citação. O
Código de Processo Penal, em seu Art. 362, prevê a chamada “citação por hora certa”, que será admitida na
hipótese de o réu estar se ocultando para não ser citado, devendo tal informação ser devidamente certificada por
oficial de justiça. Ocorre que, no caso, não seria possível a citação por hora certa, já que não havia nenhum indício
concreto de que o acusado estaria se ocultando para não ser citado. Simplesmente a residência de Patrick
encontrava-se fechada porque ele estava trabalhando em embarcação, sendo prematura a conclusão do oficial de
justiça apenas com base em um único comparecimento na residência daquele que pretendia citar. Dessa forma, a
citação foi inválida e certamente houve prejuízo ao exercício do direito de defesa, tendo em vista que o advogado
não conseguiu conversar com o réu sobre os fatos antes de apresentar resposta à acusação.
Superada tal questão, diante das informações constantes do enunciado, caberia ao advogado do denunciado
pleitear a absolvição sumária de seu cliente, tendo em vista que o fato evidentemente não constitui infração
penal e ocorreu causa manifesta de exclusão da ilicitude.
O fato narrado evidentemente não constitui crime.
De acordo com o Art. 17 do Código Penal, não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por
absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o delito. Trata-se de aplicação do instituto do crime
impossível, onde se valoriza mais a vertente objetiva em detrimento da subjetiva. No crime impossível, o agente
age com dolo na prática do crime e efetivamente este não se consuma por circunstâncias alheias à sua vontade.
Todavia, a tentativa não é punida pelo fato de ser impossível a consumação, logo o bem jurídico não seria
colocado em risco suficiente para justificar a intervenção do Direito Penal.
Na situação apresentada, Patrick buscou praticar um crime de lesão corporal grave mediante disparo de arma de
fogo. Ocorre que aquela arma era totalmente incapaz de efetuar disparos, conforme consta do laudo pericial
acostado, logo houve ineficácia absoluta do meio utilizado, impedindo a punição da tentativa. O reconhecimento
do crime impossível gera a atipicidade da conduta e, consequentemente, cabível a absolvição sumária pelo fato
evidentemente não constituir crime, com fulcro no Art. 397, inciso III, do CPP.
Por outro lado, diante da legítima defesa, deveria ser formulado pedido de absolvição sumária com fundamento
no Art. 397, inciso I, do CPP.
Consta do enunciado que Patrick somente agiu com intenção de lesionar Lauro para resguardar a integridade
física de sua sobrinha. De acordo com o Art. 25 do Código Penal, haverá legítima defesa quando alguém, usando
moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem,
sendo esta causa de exclusão da ilicitude, nos termos do Art. 23, inciso II, do Código Penal.
Patrick agiu para proteger direito de terceiro (sua sobrinha) e para repelir injusta agressão, já que Lauro estava
agredindo Natália de maneira relevante e exagerada em razão de ciúmes. Os meios utilizados foram moderados e
necessários, já que Patrick encontrava-se imobilizado na perna e no braço, impedindo que entrasse em luta
corporal sem utilizar outro meio que não a arma de fogo. Ademais, Patrick não pretendia matar Lauro, mas
apenas lesionar.

Fonte: FGV

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